A Colocação Pronominal nas Locuções Verbais: Guia
A colocação pronominal nas locuções verbais é um dos temas mais importantes da gramática normativa e, ao mesmo tempo, uma fonte frequente de dúvidas na escrita formal. As locuções verbais são formadas por um verbo auxiliar acompanhado de um verbo principal, normalmente no infinitivo, no gerúndio ou no particípio. Nesse contexto, os pronomes oblíquos átonos — como me, te, se, o, a, lhe, nos e lhes — podem ocupar mais de uma posição. A escolha adequada depende de fatores como a presença de palavras atrativas, o modo verbal, o registro linguístico e a forma assumida pelo verbo principal. Compreender essas regras ajuda a escrever com clareza, precisão e segurança em provas, textos acadêmicos, documentos profissionais e produções literárias.
Como funciona a colocação pronominal nas locuções verbais
Uma locução verbal reúne dois ou mais verbos que expressam uma única ideia verbal. Em construções como vou explicar, estava estudando, deve comparecer e tinha sido informado, o primeiro verbo exerce, em geral, a função de auxiliar, enquanto o último apresenta o sentido principal da ação. Quando um pronome oblíquo átono é incluído, surgem possibilidades que devem ser avaliadas segundo a norma-padrão.
Em uma locução com verbo principal no infinitivo ou no gerúndio, o pronome pode aparecer antes do verbo auxiliar, entre os dois verbos ou depois do verbo principal. Por exemplo: Não me posso esquecer do compromisso, não posso me esquecer do compromisso e não posso esquecer-me do compromisso. Embora as três construções possam ser encontradas, a primeira e a segunda se relacionam mais diretamente à atração exercida pelo advérbio de negação. A terceira é aceita em determinados contextos, mas tende a soar menos natural quando há uma palavra atrativa antes da locução.
O estudo da colocação pronominal exige distinguir o uso culto escrito das práticas correntes do português brasileiro. Na fala cotidiana, é muito comum dizer “vou te contar”, “pode me ajudar” e “estava se preparando”. Essas formas são amplamente empregadas e, em grande parte, também aceitas em textos formais. Contudo, em situações de maior monitoramento linguístico, é recomendável observar as regras tradicionais de próclise, ênclise e mesóclise, especialmente quando a construção pode gerar ambiguidade ou ser avaliada em concursos e exames.
A próclise ocorre quando o pronome vem antes do verbo. Nas locuções verbais, ela pode posicionar o pronome antes do auxiliar: “Nunca me tinha contado a verdade”. Também pode ocorrer entre o auxiliar e o verbo principal em formas usuais do português brasileiro: “Nunca tinha me contado a verdade”. A preferência normativa mais conservadora costuma dar destaque à posição antes do auxiliar quando existe elemento atrativo, pois esse elemento exerce influência sobre a locução inteira.
A ênclise acontece quando o pronome é colocado depois do verbo. Em locuções com infinitivo ou gerúndio, pode-se ligar o pronome ao verbo principal: “Devo informar-lhe o resultado”, “Estava preparando-se para a entrevista”. Quando o pronome vem depois do infinitivo, deve-se usar hífen. Nos verbos terminados em r, s ou z, essas letras desaparecem antes dos pronomes o, a, os e as, que passam a lo, la, los e las: “vou convidá-la”, “deves fazê-lo”, “iremos compô-las”.
A mesóclise, por sua vez, é o posicionamento do pronome no interior do verbo. Ela só ocorre com o futuro do presente e o futuro do pretérito, quando não há palavra atrativa: “Dar-lhe-ei a resposta” e “Convidá-la-ia para a reunião”. Nas locuções verbais, a mesóclise normalmente não incide sobre o auxiliar de forma produtiva, porque as construções perifrásticas com “ir + infinitivo”, como “vou lhe explicar”, substituem com frequência as formas simples “explicar-lhe-ei”. Assim, a mesóclise é relevante para compreender o sistema geral da colocação pronominal, mas aparece pouco nas locuções verbais do português brasileiro contemporâneo.
É importante considerar que o particípio impõe uma limitação. Em locuções formadas por auxiliar mais particípio, o pronome não deve ser ligado ao particípio: não se recomenda “tinha informado-me” nem “foi comunicado-lhe”. O adequado é colocar o pronome antes do auxiliar ou entre o auxiliar e o particípio, conforme o contexto: “Ele me tinha informado” ou “Ele tinha me informado”; “A notícia lhe foi comunicada”. Essa restrição ocorre porque o particípio não recebe pronome enclítico na norma-padrão.
Para aprofundar o vocabulário e os usos formais da língua, é útil consultar obras lexicográficas e institucionais, como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras. Também é recomendável observar exemplos reais em fontes educacionais confiáveis, pois a gramática se manifesta em diferentes gêneros e situações comunicativas.
Regras essenciais para empregar os pronomes
- Use próclise quando houver palavras atrativas antes da locução verbal, como não, nunca, ninguém, nada, que, quem, quando, onde, talvez e advérbios em geral. Exemplo: “Não me posso atrasar”.
- Prefira a posição antes do auxiliar em escrita formal quando a palavra atrativa atua sobre toda a locução. Exemplo: “Jamais lhe poderia negar apoio”.
- Aceite a posição entre os verbos com infinitivo ou gerúndio, sobretudo no português brasileiro. Exemplo: “Quero me dedicar mais aos estudos”.
- Empregue ênclise no verbo principal quando não houver fator de próclise e o principal estiver no infinitivo ou gerúndio. Exemplo: “Pretendo ajudá-lo” e “Continuava explicando-lhe o problema”.
- Não una o pronome ao particípio. Em vez de “havia entregado-me”, escreva “havia me entregado” ou, em registro mais tradicional, “me havia entregado”.
- Observe as alterações gráficas com os pronomes o, a, os e as após verbos terminados em r, s e z. Exemplo: “deve vendê-los”, e não “deve vender-os”.
- Evite iniciar período formal com pronome oblíquo átono, preferência tradicional da norma-padrão. Em lugar de “Me avisaram cedo”, prefira “Avisaram-me cedo” ou “Eles me avisaram cedo”.
Comparativo das posições possíveis na locução
| Situação gramatical | Posição recomendada | Exemplo | Observação |
|---|---|---|---|
| Palavra negativa antes da locução | Antes do auxiliar | “Não me deve esquecer.” | A negação favorece a próclise. |
| Pronome com infinitivo, sem atrativo | Após o verbo principal | “Deve recordar-se.” | A ênclise é possível e formalmente adequada. |
| Uso corrente brasileiro com infinitivo | Entre auxiliar e principal | “Deve se recordar.” | Forma muito frequente no Brasil. |
| Verbo principal no gerúndio | Após o gerúndio ou antes da locução | “Estava preparando-se.” | Sem elemento atrativo, a ênclise é viável. |
| Verbo principal no particípio | Antes do auxiliar ou entre os verbos | “Ela me havia avisado.” | Não se emprega pronome depois do particípio. |
| Futuro simples sem atrativo | Mesóclise, em registro formal | “Dir-lhe-ei a verdade.” | Não é uma locução verbal, mas completa o quadro normativo. |
A tabela demonstra que a escolha não é aleatória. A presença de um termo atrativo altera a organização da frase, enquanto a forma nominal do verbo principal determina se a ênclise será admissível. Em textos revisados, convém analisar a estrutura completa antes de decidir onde inserir o pronome.
Dúvidas comuns sobre pronomes em locuções

É correto dizer “não vou me atrasar”?
Sim. Essa construção é muito comum e aceita no português brasileiro. Em uma orientação gramatical mais tradicional, também se pode escrever “não me vou atrasar”, pois o advérbio “não” atrai o pronome para antes do auxiliar. A forma “não vou atrasar-me” é menos recomendável em contextos formais porque ignora, na prática, a atração exercida pela negação.
Qual é a diferença entre “vou te ajudar” e “vou ajudá-lo”?
As duas frases podem estar corretas, mas apresentam diferenças de pessoa e de registro. “Vou te ajudar” usa o pronome “te”, muito frequente no português brasileiro. “Vou ajudá-lo” emprega “o” transformado em “lo” após a queda do r de “ajudar”, seguindo a regra ortográfica da ênclise. A segunda forma é especialmente adequada quando se deseja manter a concordância com “você” em um registro formal.
Posso usar pronome depois do particípio?
Não, segundo a norma-padrão. Formas como “tinha avisado-me” e “foi entregue-lhe” não são recomendadas. Prefira “tinha me avisado”, “me tinha avisado”, “lhe foi entregue” ou “foi-lhe entregue”, conforme a estrutura da oração. Essa é uma das regras mais objetivas sobre a colocação pronominal nas locuções verbais.
“Pode-se dizer” e “se pode dizer” estão corretas?
Sim, embora dependam do contexto. “Pode-se dizer” apresenta ênclise ao auxiliar e costuma ocorrer quando não há termo atrativo. “Não se pode dizer” exige próclise por causa da negação. Já “se pode dizer” pode aparecer quando o pronome é atraído por uma palavra anterior ou em certas construções estilísticas, mas deve ser analisado dentro da frase completa.
A mesóclise é obrigatória no português atual?
Não. A mesóclise é uma possibilidade prevista pela tradição gramatical para futuros do presente e do pretérito sem elementos atrativos, como em “far-se-á” e “dir-lhe-ia”. No português brasileiro atual, porém, ela é rara fora de textos solenes, jurídicos ou literários. Em muitos casos, a reescrita com locução verbal produz uma alternativa mais natural: “vai-se fazer” ou “vou lhe dizer”.
Conclusão: domínio da norma e clareza textual
Dominar a colocação pronominal nas locuções verbais permite construir frases mais corretas, elegantes e adequadas ao contexto de comunicação. A regra central é observar se há palavra atrativa, identificar a forma do verbo principal e reconhecer as limitações do particípio. Com infinitivo e gerúndio, há maior flexibilidade; com particípio, o pronome não pode aparecer depois do verbo principal. Embora o português brasileiro valorize soluções como “vou me organizar” e “pode me informar”, o conhecimento da norma-padrão amplia as possibilidades expressivas do escritor. Revisar cada locução verbal, sobretudo em textos formais, é uma estratégia eficiente para evitar desvios e garantir precisão gramatical.
Fontes para estudo e consulta
- Academia Brasileira de Letras — Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
- Ministério da Educação — materiais e orientações educacionais.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- ROCHA LIMA, Carlos Henrique da. Gramática Normativa da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: José Olympio.
Isenção de responsabilidade
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. As explicações apresentam orientações da gramática normativa e usos recorrentes do português brasileiro, mas escolhas de colocação pronominal podem variar conforme o gênero textual, a região, a intenção estilística e a linha gramatical adotada. Para trabalhos acadêmicos, provas, documentos oficiais ou publicações profissionais, recomenda-se consultar a norma exigida pela instituição responsável e, quando necessário, contar com a revisão de um profissional de língua portuguesa.
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Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.