A Criação Estado Israel: História e Contexto
A criação do Estado de Israel, proclamada em 14 de maio de 1948, constitui um dos acontecimentos mais decisivos e debatidos da história contemporânea do Oriente Médio. O processo envolveu o desenvolvimento do sionismo, a imigração judaica para a Palestina, o domínio britânico sobre o território, a proposta de partilha da Palestina aprovada pela Organização das Nações Unidas e a oposição de lideranças árabes palestinas e de Estados árabes vizinhos. Compreender esse marco histórico exige observar tanto as aspirações nacionais judaicas, fortemente impactadas pelo antissemitismo europeu e pelo Holocausto, quanto os direitos, vínculos territoriais e demandas políticas da população árabe palestina. Seus desdobramentos ajudam a explicar a persistência do conflito árabe-israelense até o presente.
Origens históricas da criação do Estado de Israel
O território conhecido historicamente como Palestina esteve sob diferentes administrações ao longo dos séculos. Após integrar o Império Otomano por aproximadamente quatrocentos anos, passou ao controle britânico depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1922, a Liga das Nações formalizou o Mandato Britânico da Palestina, atribuindo ao Reino Unido a administração do território e a responsabilidade de implementar compromissos internacionais assumidos durante a guerra.
Um documento central nesse contexto foi a Declaração Balfour, de 1917. Nela, o governo britânico declarou ver com simpatia o estabelecimento de um “lar nacional para o povo judeu” na Palestina, ressalvando que não deveriam ser prejudicados os direitos civis e religiosos das comunidades não judaicas existentes. A redação, porém, era ambígua e se tornaria fonte de interpretações conflitantes. Para o movimento sionista, a declaração representava apoio internacional a uma aspiração nacional; para os árabes palestinos, ignorava seus direitos políticos e sua condição de maioria demográfica no território.
O sionismo moderno surgiu no fim do século XIX, especialmente na Europa Central e Oriental, como um movimento político e nacional que defendia a autodeterminação judaica. Theodor Herzl foi uma de suas figuras mais conhecidas, ao argumentar que a perseguição recorrente contra judeus na Europa exigia uma solução nacional. Embora existissem diferentes correntes sionistas — religiosas, socialistas, liberais e revisionistas —, a Palestina adquiriu importância simbólica, histórica e política central para grande parte do movimento.
Entre as décadas de 1920 e 1940, aumentou a imigração judaica para a Palestina, com a formação de comunidades, instituições educacionais, cooperativas agrícolas, organizações políticas e forças de autodefesa. Ao mesmo tempo, a sociedade árabe palestina organizava partidos, associações e mobilizações contrárias à imigração em larga escala e à perspectiva de divisão territorial. A Revolta Árabe de 1936 a 1939 evidenciou a profundidade das tensões contra a administração britânica e contra o projeto sionista.
A situação tornou-se ainda mais sensível após a Segunda Guerra Mundial. O assassinato de cerca de seis milhões de judeus no Holocausto reforçou mundialmente a percepção de urgência quanto à proteção de sobreviventes, refugiados e deslocados judeus. Ao mesmo tempo, a violência crescente entre grupos armados, a crise administrativa e o desgaste político levaram o Reino Unido a transferir a questão palestina à recém-criada Organização das Nações Unidas.
A ONU em 1947 e a proposta de partilha
Em 1947, a ONU criou um comitê especial para examinar o futuro da Palestina. A recomendação majoritária resultou na Resolução 181 da Assembleia Geral, aprovada em 29 de novembro daquele ano. O texto propunha a criação de dois Estados independentes, um judeu e outro árabe, além de um regime internacional especial para Jerusalém e seus arredores, devido à relevância religiosa da cidade para judeus, cristãos e muçulmanos.
O plano previa uma divisão territorial complexa, composta por áreas descontínuas. O Estado judeu receberia aproximadamente 55% do território do mandato, enquanto o Estado árabe ficaria com cerca de 45%. Essa distribuição tornou-se particularmente controversa porque, embora a população árabe fosse majoritária no conjunto da Palestina, o plano considerava áreas de baixa densidade populacional, como o deserto do Neguev, e a perspectiva de acolhimento de imigração judaica futura. Para consultar o texto e os registros oficiais, é possível acessar a Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU.
As lideranças sionistas aceitaram a resolução, ainda que parte delas contestasse limites territoriais e o estatuto previsto para Jerusalém. Já as lideranças árabes palestinas e os governos árabes rejeitaram a proposta. Sua posição partia, entre outros fatores, da defesa de um Estado único com maioria árabe, da oposição a uma partilha considerada desigual e da contestação ao direito de uma organização internacional decidir sobre o futuro político de uma população local sem seu consentimento.
É importante distinguir que a Resolução 181 tinha caráter recomendatório, e não criou automaticamente os dois Estados. Após sua aprovação, a Palestina entrou em uma fase de guerra civil entre comunidades e organizações armadas judaicas e árabes. Ataques, represálias, cercos e deslocamentos atingiram a população civil de ambos os lados, aprofundando a ruptura social e territorial antes mesmo do fim formal do mandato britânico.
Da declaração de independência à guerra de 1948
Em 14 de maio de 1948, poucas horas antes de expirar o Mandato Britânico, David Ben-Gurion proclamou a independência de Israel em Tel Aviv. A declaração apresentou o novo país como Estado judeu, afirmou a abertura à imigração judaica e prometeu igualdade de direitos sociais e políticos a todos os habitantes, independentemente de religião, raça ou sexo. No dia seguinte, exércitos do Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque entraram no conflito, iniciando a guerra árabe-israelense de 1948.
Ao final da guerra, os acordos de armistício de 1949 estabeleceram linhas de cessar-fogo, mas não uma solução permanente. Israel passou a controlar cerca de 78% do território da Palestina sob mandato, uma área maior do que a prevista no plano da ONU. A Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, ficou sob administração jordaniana, enquanto a Faixa de Gaza ficou sob administração egípcia. O Estado árabe palestino previsto na Resolução 181 não foi estabelecido.
Outro resultado fundamental foi o deslocamento de centenas de milhares de árabes palestinos. Para os palestinos, esse processo é conhecido como Nakba, termo árabe que significa “catástrofe”, e está ligado à perda de lares, aldeias e meios de subsistência. A memória israelense, por sua vez, enfatiza a guerra de independência e a sobrevivência do novo Estado diante da invasão de países vizinhos. Uma análise histórica responsável reconhece que essas narrativas possuem experiências humanas, documentos e memórias distintas, sem reduzir a complexidade dos acontecimentos.
Fatores essenciais para entender o processo
- Sionismo: movimento nacional judaico que defendeu a criação de um lar nacional e, posteriormente, de um Estado judeu na Palestina.
- Mandato Britânico: administração exercida pelo Reino Unido entre 1922 e 1948, marcada por promessas políticas contraditórias e incapacidade de conciliar interesses rivais.
- Imigração e demografia: o crescimento da população judaica alterou a dinâmica econômica, política e social da região.
- Holocausto: o genocídio cometido pelo regime nazista ampliou a urgência internacional em relação a refugiados e sobreviventes judeus.
- Partilha da Palestina: proposta aprovada pela ONU em 1947 para criar dois Estados, aceita por lideranças judaicas e rejeitada por lideranças árabes.
- Guerra de 1948: conflito que definiu novas fronteiras de fato, provocou deslocamentos em massa e impediu a criação imediata de um Estado palestino.
- Questões não resolvidas: Jerusalém, fronteiras, refugiados, assentamentos, segurança e reconhecimento mútuo permanecem no centro das negociações e disputas.
Dados centrais sobre a partilha e seus efeitos

| Marco histórico | Data | Relevância |
|---|---|---|
| Declaração Balfour | 1917 | Manifestou apoio britânico a um lar nacional judaico na Palestina. |
| Mandato Britânico da Palestina | 1922–1948 | Estabeleceu a administração britânica e estruturou o contexto político da crise. |
| Resolução 181 da ONU | 29 de novembro de 1947 | Recomendou a partilha da Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe. |
| Proclamação de Israel | 14 de maio de 1948 | Formalizou a independência do Estado de Israel. |
| Guerra árabe-israelense | 1948–1949 | Redefiniu o controle territorial e gerou uma ampla crise de refugiados palestinos. |
| Acordos de Armistício | 1949 | Fixaram linhas de cessar-fogo, conhecidas posteriormente como Linha Verde. |
Perguntas comuns sobre a criação de Israel
O que foi a partilha da Palestina?
A partilha da Palestina foi a proposta da ONU aprovada em 1947 para dividir o território administrado pelo Reino Unido em dois Estados, um judeu e outro árabe, com Jerusalém sob regime internacional. O plano não foi integralmente implementado devido à escalada do conflito e à guerra de 1948.
Por que a ONU aprovou a Resolução 181?
A ONU buscava uma solução para o impasse entre as comunidades judaica e árabe da Palestina após a decisão britânica de encerrar o mandato. A proposta refletia a tentativa de conciliar reivindicações nacionais concorrentes, mas não obteve aceitação de todas as partes envolvidas.
Quando Israel foi oficialmente criado?
Israel foi proclamado em 14 de maio de 1948, quando o Mandato Britânico estava terminando. O novo Estado foi rapidamente reconhecido por alguns países, incluindo Estados Unidos e União Soviética, e tornou-se membro da ONU em 1949.
O que significa Nakba?
Nakba é a palavra árabe para “catástrofe” e designa o deslocamento e a perda de propriedades sofridos por grande parte da população árabe palestina durante a guerra de 1948. O tema dos refugiados e de seus descendentes continua sendo um dos pontos mais sensíveis do conflito.
A criação de Israel resolveu a questão palestina?
Não. A criação de Israel consolidou a soberania israelense, mas não estabeleceu o Estado árabe palestino previsto pela ONU. As guerras posteriores e a ocupação de territórios a partir de 1967 intensificaram debates sobre autodeterminação palestina, segurança israelense, fronteiras e direitos humanos.
Conclusão: um marco histórico de consequências duradouras
A criação do Estado de Israel resultou de processos históricos longos, atravessados por nacionalismos, colonialismo, migrações, perseguições e decisões diplomáticas internacionais. A ONU em 1947 ofereceu uma proposta de partilha que procurava responder a reivindicações nacionais incompatíveis, mas sua implementação foi interrompida pela guerra. Israel consolidou sua existência estatal em 1948, enquanto a ausência de um Estado palestino e o deslocamento de palestinos deram origem a questões que permanecem abertas.
Estudar esse tema com precisão requer evitar simplificações. A história envolve a busca judaica por segurança e autodeterminação, especialmente após séculos de antissemitismo e o Holocausto, assim como a experiência palestina de perda territorial, deslocamento e reivindicação nacional. A análise de fontes confiáveis, documentos internacionais e diferentes perspectivas historiográficas é indispensável para compreender por que o conflito árabe-israelense continua relevante na política global.
Referências para aprofundamento
- Nações Unidas — United Nations Information System on the Question of Palestine (UNISPAL).
- Assembleia Geral das Nações Unidas — Resolução 181 (II), 1947.
- ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. “Israel: History”.
- UNITED STATES HOLOCAUST MEMORIAL MUSEUM. Materiais históricos sobre o Holocausto, deslocados e o pós-guerra.
- SMITH, Charles D. Palestine and the Arab-Israeli Conflict. Bedford/St. Martin’s.
- GELVIN, James L. The Israel-Palestine Conflict: One Hundred Years of War. Cambridge University Press.
Isenção de responsabilidade
Este artigo possui finalidade exclusivamente educativa e informativa. O tema da criação do Estado de Israel e da Palestina envolve interpretações históricas, jurídicas e políticas divergentes, além de experiências coletivas marcadas por sofrimento. O conteúdo não substitui pesquisa acadêmica, consulta a documentos primários ou análise especializada. Para formar uma compreensão crítica, recomenda-se comparar fontes de diferentes origens, verificar datas e conceitos e considerar o contexto de produção de cada narrativa histórica.
Compartilhar este post
Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.