Partículas Expletivas ou Realce: Como Identificar
As partículas expletivas ou de realce são palavras empregadas para reforçar uma ideia, dar expressividade ao enunciado ou produzir determinado efeito de estilo, sem exercer uma função sintática indispensável na oração. Esse tema é frequente em provas escolares, vestibulares e concursos porque certas formas, especialmente se e que, podem assumir muitos papéis na língua portuguesa. Para reconhecê-las com segurança, não basta decorar exemplos: é necessário observar a estrutura da frase, verificar se há alteração essencial de sentido ou de sintaxe quando a palavra é retirada e distinguir o realce de funções como pronome reflexivo, conjunção, índice de indeterminação do sujeito e partícula apassivadora.
O que são partículas expletivas e por que elas geram dúvidas
O termo expletivo vem da noção de elemento acrescentado à construção. Na gramática tradicional, uma partícula expletiva, também chamada de partícula de realce, é um vocábulo que intensifica, destaca ou torna mais viva uma mensagem, mas não ocupa função sintática central como sujeito, objeto, predicativo ou adjunto adverbial obrigatório.
Isso não significa que o uso seja inútil. Pelo contrário: embora possa não acrescentar uma informação objetiva nova, a partícula interfere na entonação, na ênfase e no estilo. Compare: “Eles foram embora” e “Eles se foram embora”. A segunda forma, comum em contextos narrativos e coloquiais, dá maior movimento e expressividade à partida. Nesse caso, o se não indica reflexividade — ninguém foi embora a si mesmo — nem forma voz passiva.
As dúvidas surgem porque as mesmas palavras possuem empregos diferentes. O se, por exemplo, pode ser pronome reflexivo em “Ela se feriu”, conjunção subordinativa em “Se chover, ficaremos em casa”, índice de indeterminação em “Precisa-se de voluntários”, partícula apassivadora em “Vendem-se imóveis” e partícula de realce em “Ele se foi”. O que também pode ser pronome relativo, conjunção integrante, conjunção consecutiva, advérbio ou elemento de realce, conforme o contexto.
Por isso, uma análise sintática correta não deve ser baseada apenas na aparência da palavra. O procedimento adequado é examinar a relação entre os termos, a transitividade verbal, a concordância e o sentido global. A Academia Brasileira de Letras, em suas obras de referência sobre o vocabulário da língua, reforça a relevância de considerar o uso efetivo das palavras, enquanto gramáticas normativas descrevem as classificações tradicionais exigidas no ensino formal.
Como identificar a partícula de realce na oração
O primeiro teste consiste em retirar mentalmente o possível expletivo e observar o resultado. Se a oração preservar seu núcleo informativo e sua organização sintática básica, haverá um forte indício de partícula de realce. Em “Lá se vão os últimos convidados”, por exemplo, a ideia central continua em “Lá vão os últimos convidados”. O se acrescenta vivacidade à cena, mas não é necessário para identificar quem parte nem para completar a regência do verbo.
Entretanto, o teste da retirada deve ser usado com cautela. Nem toda exclusão produz uma frase igualmente natural, pois a partícula pode estar integrada a uma construção cristalizada ou alterar o tom do enunciado. A pergunta decisiva não é apenas “posso apagar a palavra?”, mas “ela estabelece uma relação sintática exigida pelo verbo ou por outro termo?”. Se a resposta for negativa e o elemento apenas enfatizar a construção, a classificação como realce torna-se plausível.
Outro passo é verificar se existe reflexividade. Em “O estudante se preparou”, o pronome está ligado ao sujeito e participa da estrutura verbal pronominal; não é apropriado classificá-lo automaticamente como expletivo. Em “O estudante se foi após a reunião”, porém, a expressão “ir-se” costuma apresentar valor enfático ou aspectual, indicando afastamento, partida definitiva ou mudança de estado no discurso.
Também é indispensável diferenciar a partícula de realce da partícula apassivadora. Em “Publicaram-se os resultados”, o verbo concorda com “os resultados”, sujeito paciente da oração. O se participa da formação da voz passiva sintética e não pode ser tratado como simples enfeite. Já em “Foram-se os dias de tranquilidade”, dependendo da leitura e da tradição gramatical adotada, o se pode ser analisado como elemento de realce associado ao verbo de movimento ou desaparecimento, sem transformar “os dias” em sujeito paciente de uma passiva.
Na dúvida, vale consultar materiais institucionais e gramáticas reconhecidas. O Ministério da Educação disponibiliza referências educacionais e documentos que valorizam o estudo contextualizado da língua. Para avaliações formais, contudo, é importante seguir a terminologia solicitada pela banca ou pelo material didático adotado.
Empregos mais comuns de se e que com valor enfático
O se expletivo aparece sobretudo com verbos de movimento, mudança, afastamento e passagem do tempo. São recorrentes estruturas como “vai-se o tempo”, “foram-se os anos”, “eis que se aproxima a noite” e “ele se foi”. Nelas, a palavra contribui para a expressividade, muitas vezes criando um tom literário, narrativo ou afetivo.
Exemplo: “Passaram-se décadas desde o encontro.” Em determinadas descrições gramaticais, esse se é entendido como partícula de realce, pois a mensagem essencial está em “Passaram décadas desde o encontro”. Contudo, classificações podem variar conforme a gramática e a interpretação da construção. Em uma prova, a melhor estratégia é avaliar as alternativas e identificar se há concordância, passividade real ou indeterminação do sujeito.
O que de realce costuma ocorrer em fórmulas enfáticas. Em “Quase que perdi o ônibus”, o que reforça a proximidade do acontecimento: a pessoa não perdeu o ônibus, mas esteve muito perto disso. Em “Ele é que resolveu o problema”, a estrutura destaca o sujeito, equivalendo a “Foi ele quem resolveu o problema”. Aqui, o foco recai sobre “ele”, em oposição explícita ou implícita a outras pessoas.
Há ainda construções interrogativas como “O que é que você pretende fazer?”. Nessa sequência, a análise exige atenção: o primeiro “que” integra a estrutura interrogativa, enquanto “é que” funciona como recurso de focalização e ênfase. A frase poderia ser expressa de maneira menos marcada em “O que você pretende fazer?”. Portanto, não se deve atribuir a mesma função a todas as ocorrências de que em uma única oração.
Sinais práticos para não confundir as funções
- Observe o verbo: verifique se ele exige pronome ou se a presença de se forma uma construção pronominal legítima, como em “arrepender-se” e “queixar-se”.
- Teste a reflexividade: em “Marina se penteou”, a ação retorna ao sujeito; logo, se é pronome reflexivo, não partícula de realce.
- Cheque a passiva sintética: em “Alugam-se apartamentos”, “apartamentos” recebe a ação e determina a concordância verbal. Trata-se de partícula apassivadora.
- Analise a indeterminação: em “Precisa-se de técnicos”, o verbo permanece no singular e não há sujeito determinado. O se é índice de indeterminação do sujeito.
- Compare sem o elemento: se a oração mantém sua estrutura principal e o termo apenas intensifica a expressão, pode haver valor expletivo.
- Considere o contexto: linguagem literária, falas narrativas e expressões fixas favorecem o uso de elementos de realce.
- Evite decisões automáticas: uma mesma forma gráfica não possui uma única classificação em todos os enunciados.
Quadro comparativo das funções de se

| Função | Exemplo | Critério de identificação | Classificação |
|---|---|---|---|
| Partícula de realce | “Eles se foram cedo.” | Intensifica a ideia de partida; não há reflexividade nem passiva. | Expletivo |
| Pronome reflexivo | “Ela se machucou.” | A ação praticada pelo sujeito recai sobre ele próprio. | Pronome oblíquo |
| Partícula apassivadora | “Consertam-se relógios.” | “Relógios” é sujeito paciente e o verbo concorda no plural. | Voz passiva sintética |
| Índice de indeterminação | “Necessita-se de apoio.” | Verbo transitivo indireto no singular; sujeito indeterminado. | Índice de indeterminação do sujeito |
| Conjunção condicional | “Se houver tempo, ligarei.” | Introduz uma oração subordinada com ideia de condição. | Conjunção subordinativa |
| Parte integrante do verbo | “Ele se arrependeu.” | O verbo é pronominal e exige o pronome na forma padrão. | Pronome integrante |
Dúvidas recorrentes sobre partículas de ênfase
Partícula expletiva e partícula de realce são a mesma coisa?
Em grande parte das gramáticas escolares, sim. Os termos designam palavras ou expressões que reforçam o enunciado sem desempenhar papel sintático essencial. Alguns autores preferem “expletivo”; outros, “de realce”, por considerarem o segundo termo mais transparente para o estudante.
Todo se que pode ser retirado é expletivo?
Não. A possibilidade de retirada é apenas um indício inicial. É preciso analisar a estrutura completa, pois a exclusão pode alterar a regência, a voz verbal, o sentido ou a aceitabilidade da frase. O contexto e o comportamento do verbo são determinantes.
Como diferenciar se expletivo de partícula apassivadora?
Na partícula apassivadora, há sujeito paciente e concordância entre esse sujeito e o verbo: “Vendem-se casas”. No uso expletivo, o se não cria passiva nem indica paciente; ele apenas dá ênfase, como em “Foram-se os convidados”.
O que em “quase que caí” é obrigatório?
Não necessariamente. Em “Quase que caí”, o que reforça a noção de iminência. A forma “Quase caí” comunica o mesmo fato principal, embora com menor efeito expressivo. Por isso, a ocorrência é tradicionalmente associada ao realce.
As bancas de concurso aceitam classificações diferentes?
Podem existir divergências entre autores, sobretudo em construções antigas, literárias ou pouco frequentes. Em provas objetivas, deve-se seguir a nomenclatura indicada no enunciado, no edital e nas gramáticas adotadas pela banca, justificando a resposta pelos critérios sintáticos disponíveis.
Conclusão: análise contextual é a melhor estratégia
Compreender as partículas expletivas ou realce é fundamental para interpretar textos e resolver questões de gramática normativa com mais precisão. Esses elementos não devem ser vistos como palavras sem valor: sua função é tornar a comunicação mais enfática, expressiva e marcada estilisticamente. O ponto central é reconhecer que se e que possuem múltiplos empregos e que somente a análise da oração permite definir sua classificação.
Ao encontrar um possível expletivo, observe a transitividade do verbo, procure um sujeito paciente, teste a reflexividade, avalie a concordância e compare a frase com uma versão sem o elemento destacado. Esse método reduz confusões entre partícula de realce, partícula apassivadora, índice de indeterminação e pronome reflexivo. Com prática de leitura e análise sintática, a identificação deixa de depender de memorização e passa a ser uma decisão fundamentada.
Referências para aprofundar o estudo
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.
- ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Norma ortográfica e recursos de língua portuguesa. Acesso em: 4 ago. 2026.
- HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.
- MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Materiais e informações sobre educação básica. Acesso em: 4 ago. 2026.
Isenção de responsabilidade
Este artigo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa. A classificação de partículas expletivas ou de realce pode apresentar variações terminológicas entre gramáticas, autores, escolas e bancas examinadoras. Para atividades avaliativas, trabalhos acadêmicos ou concursos, consulte o edital, o material didático exigido e fontes gramaticais atualizadas. O conteúdo não substitui a orientação de professores especializados em língua portuguesa.
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Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.