Que Ora Conjunção Integrante Ora Pronome Relativo: Guia
A dúvida sobre que ora conjunção integrante ora pronome relativo é muito comum no estudo da sintaxe da língua portuguesa. Isso acontece porque a palavra “que” pode exercer diversas funções conforme o contexto, alterando a classificação da oração que introduz e a análise de toda a frase. Em certos períodos, ela apenas conecta uma oração subordinada substantiva à oração principal; em outros, retoma um termo antecedente e inicia uma oração subordinada adjetiva. Saber distinguir esses usos é indispensável para interpretar textos, responder questões de vestibulares e concursos e escrever com maior domínio gramatical.
Como identificar a função da palavra que na oração
O primeiro passo é compreender que a palavra “que” não possui uma classificação única e permanente. Sua função depende da relação estabelecida entre as orações. Quando atua como conjunção integrante, ela introduz uma oração subordinada substantiva, isto é, uma oração que desempenha papel semelhante ao de um substantivo na estrutura do período. Quando atua como pronome relativo, ela retoma um substantivo ou pronome anterior, chamado de antecedente, e introduz uma oração subordinada adjetiva.
Compare os exemplos: “Espero que você consiga” e “O aluno que conseguiu comemorou”. Na primeira frase, “que você consiga” completa o sentido do verbo “espero”. A oração inteira funciona como objeto direto de “espero”; por isso, o “que” é conjunção integrante. Na segunda, “que” retoma “o aluno” e introduz a informação “conseguiu”, que caracteriza esse aluno. Nesse caso, trata-se de pronome relativo.
Uma diferença decisiva está na presença de antecedente. O pronome relativo normalmente se refere a uma palavra já expressa: “A notícia que recebi era importante.” O termo “que” retoma “a notícia” e, dentro da oração subordinada, exerce uma função sintática: é objeto direto de “recebi”, pois alguém recebe algo. Já na frase “Recebi a notícia de que a reunião foi adiada”, considerando a construção em que a preposição é exigida pelo nome “notícia”, a oração introduzida pela conjunção integra o sentido do substantivo. Não há antecedente retomado por “que”.
É importante observar que o pronome relativo não é apenas um elemento de ligação. Ele também ocupa uma posição sintática na oração subordinada. Em “O livro que desapareceu era raro”, “que” retoma “o livro” e funciona como sujeito de “desapareceu”. Em “O livro que comprei era raro”, “que” retoma “o livro” e funciona como objeto direto de “comprei”. Essa dupla atuação — conectar e exercer função sintática — é uma marca central dos pronomes relativos.
A conjunção integrante, em contrapartida, não desempenha função sintática interna na oração que introduz. Em “É necessário que todos participem”, o segmento “que todos participem” exerce a função de sujeito oracional para a expressão “é necessário”. Dentro dessa oração, o sujeito é “todos”; portanto, “que” apenas inicia e conecta a oração subordinada substantiva. As conjunções integrantes mais recorrentes são “que” e “se”.
O estudo dessa distinção está relacionado às orientações de análise linguística previstas para a educação básica. A Base Nacional Comum Curricular valoriza a reflexão sobre os efeitos de sentido e os mecanismos de organização sintática dos textos. Assim, identificar a função de “que” não deve ser apenas um exercício de memorização: é uma forma de compreender como as ideias se conectam em uma argumentação, narrativa ou explicação.
O teste da substituição por “isso”
Um recurso eficiente para reconhecer a conjunção integrante é substituir a oração introduzida por “que” pelo pronome “isso”. Em “Desejo que a pesquisa avance”, pode-se dizer “Desejo isso”. A substituição preserva a estrutura essencial: “que a pesquisa avance” funciona como um bloco substantivo, objeto direto de “desejo”. Logo, o “que” é conjunção integrante.
Já em “A pesquisa que avançou recebeu apoio”, não seria adequado substituir “que avançou” simplesmente por “isso” sem destruir a relação entre o nome e sua caracterização. O segmento “que avançou” especifica “a pesquisa” e equivale, em sentido aproximado, a “a pesquisa avançada” ou “a pesquisa a qual avançou”, embora esta última formulação não seja natural. A análise mostra que se trata de uma oração subordinada adjetiva introduzida por pronome relativo.
O teste do antecedente expresso
Pergunte-se: existe uma palavra anterior que “que” retoma? Se a resposta for positiva, há forte indício de pronome relativo. Em “As regras que estudamos serão cobradas”, “que” retoma “as regras”. Além disso, é possível reconhecer sua função: estudamos as regras; portanto, “que” é objeto direto. Em “Percebi que as regras mudaram”, não há um termo antecedente equivalente a “que”; a oração “que as regras mudaram” completa o verbo “percebi”. Nesse caso, a classificação correta é conjunção integrante.
Nem sempre o antecedente vem imediatamente antes do pronome. Em “Li o artigo do pesquisador que apresentou a proposta”, o relativo “que” pode retomar “pesquisador”, dependendo do sentido pretendido. A interpretação contextual é necessária para evitar ambiguidades. Quando houver risco de dupla leitura, a reescrita é recomendável: “Li o artigo, escrito pelo pesquisador que apresentou a proposta” ou “Li o artigo do pesquisador; ele apresentou a proposta”.
Sinais práticos para diferenciar conjunção e pronome relativo
- Procure o antecedente: se “que” retoma um nome ou pronome anterior, tende a ser pronome relativo.
- Verifique a função interna: se “que” é sujeito, objeto direto, objeto indireto ou complemento dentro da oração subordinada, é pronome relativo.
- Aplique o teste de “isso”: se a oração inteira puder ser trocada por “isso”, geralmente há uma oração subordinada substantiva introduzida por conjunção integrante.
- Observe o tipo de oração: conjunção integrante introduz oração subordinada substantiva; pronome relativo introduz oração subordinada adjetiva.
- Analise a exigência de preposição: em “A cidade em que moro”, a preposição “em” é exigida pelo verbo “morar”; “que” retoma “a cidade” e é pronome relativo.
- Evite decidir só pela palavra: o mesmo “que” pode mudar de classe em frases diferentes, razão pela qual a análise do contexto é indispensável.
- Considere o sentido global: orações adjetivas caracterizam ou delimitam um nome; orações substantivas completam verbos, nomes, adjetivos ou estruturas impessoais.
Comparação entre os usos de “que” na sintaxe
| Critério | Conjunção integrante | Pronome relativo |
|---|---|---|
| Tipo de oração introduzida | Oração subordinada substantiva | Oração subordinada adjetiva |
| Retoma antecedente? | Não | Sim, normalmente um substantivo ou pronome |
| Exerce função sintática na subordinada? | Não | Sim |
| Exemplo | “Todos sabem que o prazo terminou.” | “O prazo que terminou era curto.” |
| Teste útil | Substituir a oração por “isso” | Localizar o antecedente e a função do relativo |
| Função da oração | Sujeito, objeto, complemento nominal, predicativo ou aposto | Caracterizar, explicar ou restringir um nome |
Nos exemplos da tabela, note a alteração de sentido e de estrutura. Em “Todos sabem que o prazo terminou”, o conteúdo completo da informação é aquilo que todos sabem. A oração subordinada é objeto direto de “sabem”. Em “O prazo que terminou era curto”, a oração “que terminou” atribui uma característica ao prazo; o relativo é sujeito de “terminou”.
Também convém diferenciar as orações adjetivas restritivas das explicativas. Em “Os candidatos que entregaram os documentos foram chamados”, a oração restringe o grupo de candidatos: apenas os que entregaram os documentos foram chamados. Em “Os candidatos, que entregaram os documentos, foram chamados”, as vírgulas indicam uma informação explicativa, sugerindo que todos os candidatos entregaram os documentos. Em ambos os casos, “que” é pronome relativo, mas a pontuação modifica o sentido.

Para aprofundar o conhecimento da norma-padrão e da terminologia gramatical, é útil consultar materiais de instituições especializadas, como o portal Nossa Língua, da Academia Brasileira de Letras. A consulta a gramáticas e dicionários confiáveis ajuda a confirmar classificações e a perceber variações de uso em textos reais.
Dúvidas recorrentes sobre a palavra “que”
Como saber se “que” é conjunção integrante?
O “que” é conjunção integrante quando introduz uma oração subordinada substantiva e não retoma nenhum termo anterior. Um bom teste é substituir toda a oração por “isso”. Em “Afirmaram que haverá mudanças”, pode-se dizer “Afirmaram isso”. Portanto, “que” apenas conecta a oração que funciona como objeto direto.
Todo “que” com antecedente é pronome relativo?
Em geral, a presença de um antecedente é um sinal muito forte, mas a análise deve considerar a estrutura completa. O pronome relativo retoma o antecedente e exerce função dentro da oração subordinada. Em “A proposta que analisamos foi aprovada”, “que” retoma “a proposta” e é objeto direto de “analisamos”.
A conjunção integrante pode ser retirada da frase?
Na norma-padrão, a conjunção integrante costuma ser necessária para introduzir claramente a oração subordinada desenvolvida. Em alguns registros informais, pode ocorrer omissão em construções específicas, mas essa prática não deve ser usada como critério principal de análise. O essencial é verificar se a oração completa o sentido de um termo da principal.
Qual é a função de “que” em “Tenho certeza de que ele virá”?
Nessa construção, “que” é conjunção integrante. A oração “que ele virá” completa o sentido do nome “certeza”, mediado pela preposição “de”. Trata-se de uma oração subordinada substantiva completiva nominal. O “que” não retoma “certeza” nem exerce função sintática em “ele virá”.
Em “A pessoa de que falei”, “que” é pronome relativo?
Sim. O termo “que” retoma “a pessoa” e integra a estrutura do verbo “falar de”. Como se fala de alguém, a preposição deve ser mantida antes do relativo: “a pessoa de que falei”. Nesse caso, o pronome relativo exerce função de objeto indireto.
Conclusão: análise contextual é a chave
Dominar o tema que ora conjunção integrante ora pronome relativo depende de observar a função que a palavra exerce em cada período. Se “que” introduz uma oração com valor de substantivo, sem retomar antecedente e sem desempenhar papel sintático interno, é conjunção integrante. Se retoma um nome anterior e funciona como um termo da oração subordinada, é pronome relativo. Os testes de substituição, identificação do antecedente e verificação da função sintática tornam essa análise mais segura.
Mais do que decorar definições, o estudante deve praticar com frases variadas, atentando para os verbos, as preposições, a pontuação e o sentido. Essa postura analítica melhora o desempenho em avaliações e fortalece a capacidade de construir textos claros, coesos e adequados à norma-padrão do português brasileiro.
Referências para estudo e consulta
- Academia Brasileira de Letras. Nossa Língua.
- Brasil. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de Usos do Português. São Paulo: Editora Unesp.
Isenção de responsabilidade
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educacional e informativa. Embora apresente explicações baseadas em descrições gramaticais consolidadas, classificações sintáticas podem ser abordadas com diferenças de terminologia ou ênfase entre autores, gramáticas e bancas examinadoras. Para atividades acadêmicas, avaliações formais ou elaboração de material didático, recomenda-se consultar a bibliografia indicada e seguir os critérios adotados pela instituição de ensino ou pelo edital correspondente.
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Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.