Técnicas de Redação: Impessoalização da Linguagem
Dominar as técnicas de redação, impessoalização e linguagem é indispensável para produzir textos dissertativos, acadêmicos, científicos, administrativos e profissionais com clareza. A impessoalidade não significa escrever de modo frio ou artificial: trata-se de deslocar a atenção do autor para os fatos, argumentos, dados e relações lógicas apresentados. Ao evitar julgamentos puramente individuais, marcas excessivas de primeira pessoa e expressões coloquiais, o redator fortalece a objetividade textual, a credibilidade das informações e a adequação à norma-padrão. Este artigo explica os principais recursos para construir uma linguagem impessoal, os cuidados necessários e formas práticas de revisar a redação.
O que caracteriza a linguagem impessoal
A linguagem impessoal é aquela em que o enunciado prioriza o conteúdo comunicado, e não a identidade, o gosto ou a experiência particular de quem escreve. Em uma redação dissertativa, por exemplo, a afirmação “Eu acho que o transporte público precisa melhorar” tem caráter subjetivo e pouco fundamentado. Uma alternativa mais adequada seria: “O aprimoramento do transporte público é necessário para ampliar a mobilidade urbana e reduzir desigualdades de acesso”.
A segunda formulação é mais eficiente porque apresenta uma tese verificável e abre espaço para argumentos. Isso não quer dizer que todo texto deva eliminar completamente o sujeito. A escolha depende do gênero textual: um relato pessoal, uma crônica autobiográfica ou uma carta pode exigir a primeira pessoa. Porém, em artigos científicos, relatórios, pareceres, provas discursivas e redações de vestibular, a formalidade e a impessoalização geralmente são critérios relevantes de qualidade.
Também é importante distinguir impessoalidade de obscuridade. Frases como “Foi constatado que houve questões” escondem quem constatou, quais questões ocorreram e em que contexto. A escrita formal deve ser impessoal, mas igualmente precisa. Sempre que possível, informe o agente, o fato, a fonte e a consequência: “O levantamento do instituto identificou aumento de 12% na procura por atendimento”.
Recursos linguísticos para tornar a redação objetiva
Uma das técnicas mais conhecidas é o emprego da terceira pessoa. Em vez de “Nós precisamos combater a evasão escolar”, pode-se escrever “A sociedade precisa combater a evasão escolar” ou “O combate à evasão escolar requer ações coordenadas”. A substituição desloca o foco para um agente coletivo ou para a ação necessária, o que favorece um tom analítico.
A voz passiva é outro recurso útil. A forma “As políticas públicas devem ser ampliadas pelos gestores” destaca as políticas públicas, enquanto “Os gestores devem ampliar as políticas públicas” evidencia os agentes. Ambas podem ser impessoais; a escolha deve obedecer ao ponto central do parágrafo. O uso excessivo da voz passiva, contudo, torna a leitura pesada. Por isso, é recomendável alterná-la com construções em voz ativa e nominalizações moderadas.
As construções com “se” também contribuem para a impessoalização. Em “Necessita-se de investimentos em saneamento”, o verbo permanece no singular porque “de investimentos em saneamento” funciona como objeto indireto; nesse caso, há índice de indeterminação do sujeito. Já em “Vendem-se livros”, o termo “livros” é sujeito paciente e o verbo concorda com ele. Conhecer essa diferença evita erros de concordância muito frequentes em textos formais.
Outra estratégia é transformar opiniões em argumentos sustentados. “É absurdo haver desperdício de água” pode ser reescrito como “O desperdício de água agrava a pressão sobre os sistemas de abastecimento e exige medidas educativas e fiscalizatórias”. O segundo período evita adjetivação emocional e apresenta uma relação de causa e consequência. Dados, conceitos, exemplos pertinentes e fontes confiáveis tornam a tese ainda mais sólida.
Para aprofundar o estudo da modalidade formal e das convenções gramaticais, é útil consultar materiais da Academia Brasileira de Letras. Em textos acadêmicos, a consulta a manuais institucionais e às normas de apresentação de trabalhos também ajuda a adequar citações, referências e organização argumentativa.
Etapas práticas para impessoalizar a escrita
- Identifique marcas pessoais: localize expressões como “eu penso”, “na minha opinião”, “eu acredito” e “para mim”. Avalie se elas podem ser substituídas por uma tese objetiva.
- Defina o foco argumentativo: antes de escrever, determine o problema, a causa, a consequência e a proposta que serão desenvolvidos. Um foco definido reduz repetições e subjetividades.
- Prefira verbos analíticos: use “evidencia”, “indica”, “demonstra”, “contribui”, “limita”, “favorece” e “requer” para estabelecer relações entre ideias.
- Utilize conectivos precisos: termos como “portanto”, “contudo”, “além disso”, “desse modo” e “em consequência” reforçam a coesão textual e explicitam a progressão do raciocínio.
- Fundamente afirmações: associe generalizações a dados, pesquisas, leis, documentos ou exemplos concretos. Uma afirmação verificável é mais persuasiva do que uma impressão pessoal.
- Revise a concordância: confira especialmente construções com “se”, locuções verbais, sujeito posposto e voz passiva sintética.
- Elimine informalidades: substitua gírias, abreviações e intensificadores vagos, como “muito”, “super” e “coisa”, por vocabulário específico.
Comparação entre formulações pessoais e impessoais
| Formulação pouco adequada | Reescrita impessoal | Recurso empregado |
|---|---|---|
| Eu acho que a leitura é importante. | A leitura amplia o repertório cultural e favorece o desenvolvimento crítico. | Tese fundamentável e eliminação da primeira pessoa. |
| Nós temos de cuidar do meio ambiente. | A preservação ambiental depende de ações individuais, empresariais e governamentais. | Foco no fenômeno e nos agentes sociais. |
| Para mim, faltam hospitais. | Há insuficiência de unidades hospitalares em determinadas regiões. | Verbo impessoal “haver” e precisão vocabular. |
| As pessoas não ligam para isso. | Parte da população demonstra baixa adesão às medidas preventivas. | Especificação do sujeito e registro formal. |
| Eu vi que a tecnologia ajuda bastante. | Estudos indicam que tecnologias assistivas ampliam a autonomia de usuários. | Uso de fonte, verbo analítico e vocabulário técnico. |
A tabela demonstra que a impessoalização não se limita a retirar pronomes pessoais. O processo exige escolhas lexicais, organização sintática e rigor semântico. A expressão “as pessoas”, por exemplo, pode ser excessivamente ampla; em muitos casos, é melhor indicar “estudantes”, “consumidores”, “gestores públicos” ou “moradores da região”. Quanto maior a precisão, maior tende a ser a força argumentativa.
Coesão e clareza na redação dissertativa
A objetividade textual depende diretamente da coesão textual. Não basta construir frases impessoais isoladas; os parágrafos devem manter unidade temática e conexão lógica. Um bom desenvolvimento costuma iniciar com uma frase-tópico, aprofundar a ideia com explicações ou evidências e concluir com uma consequência, avaliação ou encaminhamento.
Considere a sequência: “A desinformação dificulta decisões coletivas. Além de comprometer a compreensão de temas públicos, a circulação de conteúdos falsos reduz a confiança em instituições. Portanto, a educação midiática deve integrar estratégias de formação cidadã”. Os conectivos indicam adição e conclusão, enquanto os substantivos retomam o tema sem repetição excessiva. Essa organização é valorizada tanto na linguagem acadêmica quanto em avaliações de redação.

Em contextos escolares, as competências de escrita envolvem domínio da norma-padrão, seleção de argumentos e elaboração de proposta coerente com o tema. A página oficial do Inep sobre o Enem disponibiliza informações institucionais relevantes para estudantes que desejam compreender os parâmetros gerais do exame. Ainda assim, a prática constante de leitura, planejamento e reescrita é o caminho mais consistente para aperfeiçoar a redação.
Dúvidas comuns sobre escrita impessoal
É proibido usar a primeira pessoa em toda redação?
Não. O uso da primeira pessoa depende do gênero, da proposta e do contexto comunicativo. Em textos dissertativo-argumentativos e acadêmicos, convém evitá-la quando ela apenas introduz opinião sem fundamentação. Em relatos, memórias e textos de autoria assumida, ela pode ser necessária.
Voz passiva sempre torna o texto mais formal?
Não necessariamente. A voz passiva pode ajudar a destacar o objeto da ação, mas seu emprego exagerado prejudica a fluidez. A formalidade decorre do conjunto: precisão lexical, correção gramatical, coesão, argumentação e adequação ao gênero.
Como usar corretamente o índice de indeterminação do sujeito?
Ele ocorre, entre outros casos, com verbo na terceira pessoa do singular acompanhado de “se”, quando há verbo intransitivo, transitivo indireto ou de ligação: “Precisa-se de voluntários” e “Vive-se bem aqui”. Não se deve pluralizar o verbo em “Precisam-se de voluntários”.
É possível escrever de modo impessoal sem parecer repetitivo?
Sim. Alterne estruturas sintáticas, empregue sinônimos adequados e use conectivos. Também varie entre sujeito expresso, construções com “há”, formas passivas e substantivos abstratos, sem sacrificar a clareza.
Palavras como “importante” e “necessário” devem ser evitadas?
Elas não são proibidas, mas precisam ser justificadas. Em vez de apenas afirmar que uma medida é importante, explique por que ela é relevante, quais efeitos produz e que problema enfrenta. A fundamentação transforma uma avaliação genérica em argumento.
Conclusão: impessoalidade como estratégia de qualidade
As técnicas de redação voltadas à impessoalização da linguagem permitem construir textos mais claros, consistentes e adequados a situações formais. O uso criterioso da terceira pessoa, da voz passiva, do índice de indeterminação do sujeito, de verbos analíticos e de conectivos fortalece a argumentação sem apagar a autoria intelectual do redator. O objetivo não é produzir frases mecânicas, mas apresentar ideias com precisão e sustentação. Ao revisar um texto, verifique se há excesso de primeira pessoa, generalizações vagas, opiniões sem prova e falhas de concordância. Com planejamento, leitura qualificada e reescrita, a linguagem impessoal se torna um instrumento efetivo de comunicação acadêmica e profissional.
Fontes para consulta e aprofundamento
- ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP). Disponível em: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario. Acesso em: 4 ago. 2026.
- BRASIL. Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Enem. Disponível em: https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/avaliacao-e-exames-educacionais/enem. Acesso em: 4 ago. 2026.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Escrever e Argumentar. São Paulo: Contexto.
- FARACO, Carlos Alberto; TEZZA, Cristovão. Prática de Texto para Estudantes Universitários. Petrópolis: Vozes.
Isenção de responsabilidade
Este conteúdo possui finalidade exclusivamente educacional e informativa. As orientações apresentadas sobre técnicas de redação, impessoalização e linguagem formal devem ser adaptadas ao gênero textual, ao edital, à instituição e às normas específicas aplicáveis. Para trabalhos acadêmicos, documentos oficiais ou avaliações com critérios próprios, recomenda-se consultar o manual da instituição responsável e as instruções atualizadas da banca avaliadora.
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Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.