Desse ou Deste: Saiba Usar Corretamente
A dúvida entre desse ou deste é muito comum na escrita em língua portuguesa, sobretudo porque as duas formas parecem semelhantes e, em muitas conversas informais, são usadas como se fossem equivalentes. Contudo, a gramática normativa estabelece diferenças importantes entre elas. A escolha depende, principalmente, da posição do referente em relação às pessoas do discurso, do tempo a que se faz alusão e da organização das ideias no texto. Dominar o uso de deste e desse melhora a precisão, a coesão textual e a qualidade de redações, e-mails, relatórios, trabalhos acadêmicos e comunicações profissionais.
Entenda a diferença entre desse e deste
As palavras “deste” e “desse” resultam da contração da preposição “de” com pronomes demonstrativos. “Deste” equivale a “de este”, enquanto “desse” equivale a “de esse”. Portanto, para usar uma dessas formas corretamente, é necessário primeiro compreender a diferença entre “este” e “esse”.
Na tradição da gramática normativa, “este” indica algo que está próximo da pessoa que fala, isto é, da primeira pessoa do discurso. Já “esse” se relaciona, em princípio, com algo próximo da pessoa com quem se fala, a segunda pessoa. Consequentemente, “deste” deve ser empregado para indicar procedência, posse, assunto ou relação com algo próximo do emissor; “desse” deve remeter a algo associado ao interlocutor.
Observe a diferença: “Preciso analisar os dados deste relatório que tenho em mãos.” Nesse caso, o relatório está com quem fala. Em “Você conhece o autor desse livro que está segurando?”, o livro está próximo de quem ouve. A distinção espacial é a explicação mais conhecida, mas não é a única aplicação desses pronomes.
Na prática contemporânea brasileira, é frequente que “esse” ocupe também espaços em que a norma mais tradicional recomendaria “este”. Esse fenômeno ocorre na fala cotidiana e não impede a compreensão. Ainda assim, em contextos formais, provas, concursos, documentos institucionais e textos acadêmicos, conhecer a distinção recomendada ajuda a fazer escolhas mais conscientes.
Além da referência espacial, “deste” e “desse” colaboram para situar acontecimentos no tempo. A forma “deste” costuma indicar o período presente ou muito próximo: “As metas deste ano serão revistas em dezembro.” Por sua vez, “desse” normalmente aponta para um período já mencionado, ligado ao passado ou ao interlocutor: “As decisões desse período tiveram consequências relevantes.” Essa regra não deve ser aplicada de maneira mecânica; o contexto é sempre decisivo.
Também existe uma função essencial de coesão textual. Em geral, “este” e suas variações podem antecipar um elemento que ainda será apresentado, em um movimento chamado catáfora. “Esse” e suas variações tendem a retomar uma informação previamente mencionada, realizando uma anáfora. Veja: “Há um princípio fundamental deste artigo: a clareza deve orientar a escrita.” O termo “princípio” será explicado após os dois-pontos. Em contraste: “O artigo apresentou dados, exemplos e conclusões. A consistência desses elementos fortalece o argumento.” Aqui, “desses” recupera informações já citadas.
Essa orientação é particularmente valiosa em textos longos. O emprego apropriado dos demonstrativos reduz ambiguidades e estabelece vínculos claros entre frases e parágrafos. Para aprofundar a consulta sobre a norma-padrão e a língua portuguesa, é útil recorrer a fontes institucionais, como a Academia Brasileira de Letras, responsável pela consulta pública ao Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
Quando usar deste e quando usar desse
A forma “deste” é usada quando a ideia está vinculada a algo próximo de quem fala, ao momento atual ou a uma informação que será anunciada na sequência. Ela aparece em construções como “a conclusão deste documento”, “os resultados deste mês” e “o objetivo deste capítulo”. Em todas elas, o termo introduzido por “deste” é percebido como pertencente ao campo discursivo do emissor ou à situação presente.
Já “desse” é adequado quando o referente se relaciona ao interlocutor, a algo que já foi mencionado ou a uma situação menos próxima do emissor. Exemplos: “Não concordo com a interpretação desse trecho”, “qual é a origem desse arquivo?” e “as consequências desse episódio foram discutidas”. Na última frase, o episódio já foi apresentado no texto, o que justifica o uso de “desse”.
É importante destacar que “deste” e “desse” não são sinônimos absolutos. A troca pode alterar o ponto de vista do enunciado. Compare: “A qualidade deste produto é excelente” sugere que o produto está com o falante ou integrado à sua situação imediata. “A qualidade desse produto é excelente” sugere que o produto está com o interlocutor, foi indicado por ele ou já vinha sendo comentado.
Em cartas, e-mails e mensagens corporativas, a noção de proximidade pode ser discursiva, e não necessariamente física. Se alguém envia um arquivo anexado, pode escrever “a análise deste documento”, pois o material é apresentado pelo próprio emissor naquele instante. Se a mensagem responde a um documento recebido, “a análise desse documento” é frequentemente a opção mais natural, porque retoma algo enviado pelo destinatário.
Outro ponto relevante é a expressão “a respeito deste” ou “a respeito desse”. Se o assunto ainda será exposto, prefira “deste”: “Falaremos, a seguir, a respeito deste tema: os pronomes demonstrativos.” Se o assunto já foi abordado, use “desse”: “O tema foi apresentado no primeiro parágrafo; retomaremos alguns aspectos desse assunto.” Essa oposição torna o encadeamento argumentativo mais eficiente.
Regras práticas para não errar
- Use “deste” para algo próximo de quem fala: “A capa deste caderno está rasgada.”
- Use “desse” para algo próximo de quem ouve: “A capa desse caderno que você trouxe está rasgada.”
- Prefira “deste” ao mencionar o presente: “Os desafios deste semestre exigem planejamento.”
- Prefira “desse” para retomar uma ideia anterior: “O projeto foi aprovado. As etapas desse projeto começarão amanhã.”
- Use “deste” para anunciar uma explicação posterior: “A finalidade deste aviso é informar a mudança de horário.”
- Evite decidir apenas pela sonoridade. Leia a frase e identifique quem apresenta o objeto, a que momento ele pertence e se a informação já apareceu.
- Considere o grau de formalidade. Em situações informais, há maior flexibilidade; em textos avaliativos ou profissionais, siga a distinção recomendada pela norma-padrão.
Comparação entre deste e desse
| Aspecto | Deste | Desse |
|---|---|---|
| Formação | Contração de “de” + “este” | Contração de “de” + “esse” |
| Referência espacial | Algo próximo de quem fala | Algo próximo de quem ouve ou menos próximo do falante |
| Referência temporal | Tempo presente ou período em curso | Tempo já mencionado ou período associado ao interlocutor |
| Função textual predominante | Antecipar informação que virá | Retomar informação anterior |
| Exemplo | “O objetivo deste texto é esclarecer a dúvida.” | “A dúvida foi apresentada; a solução desse problema depende do contexto.” |
| Uso em e-mails | Documento anexado ou apresentado pelo emissor | Documento recebido ou anteriormente citado |

A tabela apresenta tendências de uso e não elimina a necessidade de interpretação contextual. A língua é dinâmica, e o português brasileiro registra variações legítimas. No entanto, para fins de ensino e produção formal, essas distinções oferecem um parâmetro seguro.
Dúvidas frequentes sobre desse ou deste
“Deste ano” ou “desse ano”: qual é o correto?
As duas formas podem ser corretas, conforme o contexto. “Deste ano” é a escolha mais indicada quando se fala do ano atual: “Os resultados deste ano foram positivos.” “Desse ano” tende a retomar um ano já citado ou relacionado ao interlocutor: “Você mencionou 2024; os dados desse ano estão no relatório.”
Posso usar “desse” para retomar uma palavra já mencionada?
Sim. Essa é uma das aplicações mais usuais de “desse”. Em “O aluno entregou um projeto. A avaliação desse projeto ocorrerá na próxima semana”, a segunda ocorrência recupera “projeto”, que já apareceu no período anterior.
“Deste” é mais formal do que “desse”?
Não necessariamente. Ambas as formas pertencem ao registro formal e resultam de contrações gramaticalmente válidas. A impressão de que “deste” é mais formal pode ocorrer porque ele é menos frequente na fala espontânea em algumas regiões do Brasil. O critério adequado é a relação de sentido, não o suposto nível de formalidade.
Qual forma usar para apresentar o assunto de um texto?
Em textos formais, “deste” é tradicionalmente recomendado quando o assunto será desenvolvido adiante: “O objetivo deste estudo é analisar os pronomes demonstrativos.” Como a explicação vem depois, a forma contribui para a catáfora e para a organização do texto.
Existe erro em usar “desse” no lugar de “deste”?
Depende do contexto e do grau de exigência da situação comunicativa. Na fala informal, a substituição é comum e geralmente não causa prejuízo de entendimento. Porém, em redações, concursos e documentos formais, a troca pode ser considerada inadequada se contrariar a referência espacial, temporal ou textual esperada pela norma-padrão.
Conclusão: escolha pelo contexto
Saber quando usar desse ou deste é uma habilidade importante para quem deseja escrever com clareza e segurança. “Deste” se associa, de modo geral, ao que está próximo do falante, ao presente e à informação que será apresentada. “Desse” se relaciona ao que está próximo do interlocutor, ao que já foi mencionado e a referências menos imediatas para quem fala.
Mais do que decorar regras isoladas, o ideal é analisar a intenção comunicativa. Pergunte-se: o referente está com quem fala ou com quem ouve? O assunto será introduzido ou retomado? Trata-se do momento presente ou de um período previamente citado? Essas perguntas ajudam a escolher a forma mais adequada e favorecem a coesão textual. A leitura atenta de bons textos e a consulta a gramáticas confiáveis consolidam esse aprendizado ao longo do tempo.
Fontes para aprofundar o estudo
- Academia Brasileira de Letras (ABL) — Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa.
- Ministério da Educação (MEC) — portal institucional de educação e materiais de referência.
- CUNHA, Celso; CINTRA, Lindley. Nova Gramática do Português Contemporâneo. Rio de Janeiro: Lexikon.
- BECHARA, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.
- HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva.
Isenção de responsabilidade
Este conteúdo tem finalidade educacional e informativa. As orientações apresentadas refletem usos recomendados pela gramática normativa e observações sobre o português brasileiro contemporâneo, mas podem existir variações regionais, estilísticas e editoriais. Para trabalhos acadêmicos, provas, concursos, publicações ou documentos com critérios específicos, recomenda-se consultar o manual da instituição, uma gramática atualizada ou um profissional especializado em revisão de textos.
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Pesquisador, empresário e escritor focado em educação, orientação sobre negócios. Escreve sobre diversos assuntos com abordagem prática e acessível para o público brasileiro.